10 de março de 2010

Nas Ruas de Lisboa.



Abre o guarda-chuva delicadamente no meio da multidão para não ferir ninguém. Recomeça o passo acelerado a que o stress o habituou, dá pisadas graves no calçado molhado, encharcando os ténis em possas que não contornava.
Começa a contar os passos, como forma de abstracção do longo caminho que ainda tinha que percorrer. Não resultou, achou a sua voz ainda mais irritante que a pesarosa caminhada.
Sempre de olhos postos no chão, ia assim passando por ruas de Lisboa.
Choca com uma pessoa, pisa outra, tropeça, escorrega, até que esbarra com uma rapariga e atira-a ao chão.
Levanta-a, pede-lhe desculpa e admira a sua beleza: Cabelos de um castanho avelã, olhos verdes, pele branca como a neve. Mais uma vez pede-lhe desculpas e avança. Olha para trás e ela sorri-lhe e começa a andar na direcção oposta.
Olha para o relógio, vê que está atrasado, acelera o passo. Uma repentina rajada de vento arranca-lhe o chapéu das mãos, volta a trás, agora á chuva, agacha-se para o apanhar quando vê uma mão que lhe imitava o gesto.
Ele recua pela repentina aparição da rapariga, a mesma com que esbarrara, sorriu e o sorriso foi retribuído, agacharam-se os dois ao mesmo tempo batendo com as cabeças, riram-se. Olharam para o chapéu e depois para os olhos um do outro, começaram uma busca pela profundeza do olhar e sorriam uma vez mais.
Ele finalmente agacha-se e apanha o chapéu, segurando-o agora com mais força.
Olha para a rapariga e alisa o seu cabelo desgrenhado pelo vento, esboça novamente um sorriso como despedida.
Vira costas, atravessa a passadeira, olha para trás, ela já não estava lá. Continua a caminhar para o seu destino, insultando-se a si próprio por saber que não fez nada para voltar a ver a rapariga.
Abstrai-se do mundo, pensa na rapariga, choca contra pessoas, leva encontrões, desgrenha os cabelos das pessoas com o chapéu-de-chuva, até que tropeça numa pedra saída do calçado e cai no meio do chão molhado. Levanta-se de imediato, ajeita-se, olha para o relógio, dá um ligeiro grito de espanto e recomeça a passada grave e acelerada.
Entra pelo portão enferrujado da escola, pede desculpa pelo atraso, senta-se na mesa, abre o caderno e começa a desenhá-la.

8 comentários:

  1. ohpaah, eu achei que a banda sonora estava simplesmente fantástica - aqueles sons da maq de escrever a fazer música, as paragens súbitas, etc etc etc, estava fantástico mesmo!

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  2. O texto está fabuloso...não apenas por estar bem escrito mas por retratar um momento pelo qual toda a gente passa pelo menos uma vez. E todos viramos costas a ofender-nos por não termos dito nada...mas por outro lado fica aquela aurea de algo misterioso, do que poderia ter sido que nos alegra o resto do dia.

    A fantasia é algo brilhante.
    Beijo*

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  3. Muito bom mesmo este texto... Parabéns!
    **

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  4. Gostei tantooo deste *.*

    PussyCat ^^

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