A suave
brisa fria acaricia a minha cara à medida que, passo após passo, vou andando
pela fria calçada lisboeta. As anónimas pessoas vão passando por mim como que
indiferentes figurantes da minha rotineira longa-metragem, os veículos vão
gritando em agonia pelas avenidas poluídas de sujidade e hipocrisia, a música
vai berrando aos meus ouvidos e o meu cérebro vai-se abstraindo de todo o
caótico movimento cosmopolita que vai girando em minha volta.
Do nada fico
surdo para o mundo e escuto com atenção a melodia que explode através dos meus
auriculares. Solto o corpo, balbucio as letras, abano a cabeça, sorrio e de
repente a alma eletriza-se e o corpo estremece com a felicidade que os sons, já
bem familiares, lhe dão. Não sei o porquê desta efémera felicidade contagiante,
só me apetece gritar, gritar e correr, correr e saltar, saltar e cair, cair e
levantar, levantar e gritar ainda mais alto, bradar aos mundos, exclamar às
gentes, vociferar até me doer a garganta, ficar sem voz e sem ar nos pulmões!
Apetece-me
gritar!
