
Agarra na escova, alisa o seu longo castanho cabelo. Olha-se uma última vez ao espelho, aprova-se, agarra nas ferrugentas chaves e na pequena mala que nada lhe serve e sai.
Pisa a velha calçada, em passo acelerado, olha para o relógio e vê que está já atrasada. Percorre as ruas da cidade, iluminada agora pelo luar, com graciosidade. Foi invadida por um sentimento de pura felicidade, que despertava a sua adrenalina, sentia que podia fazer tudo, sem ter que prestar justificações a alguém.
Pára, olha para o seu destino, e, antes de entrar, ajeita todo o seu estúpido traje e passa pelas escuras portas.
Olha para todos os cantos do barulhento bar incessante, entra de imediato na pista de dança, solta todo o seu corpo, liberta a adrenalina acumulada pela caminhada, dilacera a timidez e vive a vida, alimentando-a pela dançante música.
Pára, vai ao balcão e começa a alimentar o seu mendigo corpo que pedia álcool de esmola. Faz-lhe a vontade, alimenta-o com todos os tipos de bebida. Até que o seu corpo torna-se escravo da bebida.
Volta para a pista de dança, solta o que já não havia para soltar, dança com ele, pisa o outro, empurra aquele, beija não sei quem, e, passa assim o resto da efémera noite.
Grita, dança, canta, beija, bebe, fuma, vive a vida não sabendo como a viver.
Sai do cansado bar, já pela madrugada, arrasta-se até casa, onde cai devastada no sofá e adormece.