
Ela, de vestido vermelho, pernas finas, ancas largas, seios volumosos, cabelo longo e negro, pele branca nem estátua grega, carnudos lábios, grandes olhos azuis, perfurou a sedenta multidão. Todos eles a desejam, mas a ela ninguém interessa.
Vivia assim a sua repetitiva vida. Todos os dias seduzia, todos os dias sorria, todos os dias encantava, todos os dias despia-se, todos os dias chorava… Chorava repugnada com aquilo a que era obrigada a fazer diariamente, detestava a sua cruel rotina que se lhe espetava nem punhais no seu cansado corpo.
Mas, foi no meio da multidão que o viu, de elegante smoking preto sobre a branca pele, de cartola na cabeça recheada de pretos cabelos e de hipnotizadores olhos verdes.
Ele, com um brilho que ela não compreendia no olhar, dirigiu-se, acanhadamente, e apresentou-se.
Ambos se entreolharam fascinados e assim ficaram durante longos segundos. Ela, ansiosa, avançou na direcção do jovem rapaz. Sentiu o doce respirar dele no seu pescoço que imediatamente se arrepiou. Ele, não sabendo o que fazia, beijou-a nos seus carnudos lábios vermelhos. Ela deixou escapar uma pesarosa lágrima da sua pálida face branca ainda com os lábios pregados na doce e esguia boca do elegante desconhecido.